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Quem ensinou os meninos a serem homens?

Foto do escritor: Ramon Bennett
Ramon Bennett
8 de jun.
5 min de leitura

Existe algo profundamente curioso na forma como nossa sociedade educa meninos. Meninas crescem sendo levadas ao ginecologista, aprendem sobre menstruação, hormônios, gravidez, prevenção, vulnerabilidade física, limites do próprio corpo. Há uma construção, ainda que atravessada por tabus e constrangimentos, de que o corpo feminino precisa ser acompanhado, observado, compreendido. Já os meninos costumam crescer em uma espécie de abandono pedagógico disfarçado de liberdade. “Homem se vira”, dizem, como se essa frase produzisse autonomia, quando muitas vezes produz apenas silêncio, desinformação e desconexão emocional.

Talvez poucas frases tenham causado tanta precariedade afetiva masculina quanto essa ideia de que o menino naturalmente saberá lidar com o próprio corpo, com desejo, com hormônios, com consentimento, com sexualidade e com responsabilidade emocional sem precisar de orientação. Meninos entram na puberdade sem compreender o que está acontecendo consigo mesmos, sem espaço para perguntas, sem linguagem emocional, sem mediação adulta. E, paradoxalmente, espera-se deles maturidade sexual, domínio emocional e respeito absoluto pelo corpo do outro. Como alguém aprende a respeitar um corpo que nunca foi ensinado a compreender o próprio?

Essa pergunta me atravessa há muitos anos, talvez porque minha experiência tenha seguido um caminho diferente daquele esperado para muitos homens da minha geração. Cresci em uma família predominantemente feminina, uma mãe e duas irmãs, poucas conversas com meu pai sobre corpo, sexualidade ou emoções. Mas minha mãe compreendeu algo que muitas famílias ainda não compreenderam: educar um menino sobre o próprio corpo não precisava ser apenas responsabilidade masculina, muito menos um assunto proibido. Foi ela quem me ensinou sobre higiene íntima, sobre cuidar do meu pênis, sobre o corpo não ser motivo de vergonha, quem me mostrou que cuidado não era fraqueza, mas consciência.

Parece algo pequeno, mas não é. Muitos homens chegam à vida adulta sem jamais terem tido uma conversa minimamente saudável sobre o próprio corpo. Crescem entre o silêncio, a piada vulgar e a pornografia. Eu ainda venho de uma geração em que pais incentivavam filhos ainda crianças a olhar revistas da Playboy como se aquilo fosse um rito legítimo de masculinidade. O corpo feminino aparecia antes como consumo do que como encontro humano, meninos eram apresentados ao erotismo antes mesmo de serem apresentados à empatia, a vulgarização do corpo feminino frequentemente era confundida com iniciação masculina.

Mas, dentro da minha própria casa, algo acontecia de forma diferente. Presenciar conversas entre minha mãe e minhas irmãs, ouvir orientações sobre corpo, saúde, emoções e mudanças hormonais acabou despertando também questionamentos em mim. Talvez ali eu tenha começado a perceber algo que hoje me parece evidente: meninos também precisam ser incluídos nessas conversas. E isso não tem absolutamente nada a ver com orientação sexual. Existe uma confusão muito brasileira em torno desse tema, como se qualquer conversa mais profunda sobre emoções masculinas ameaçasse heterossexualidade, como se acolhimento produzisse fragilidade, como se empatia “feminilizasse” homens. Talvez essa seja uma das maiores tragédias da masculinidade latino-americana, homens impedidos de desenvolver inteligência emocional por medo constante de terem sua masculinidade questionada.

No meu caso, aconteceu justamente o contrário. Entender meu corpo, compreender minhas emoções, reconhecer necessidades hormonais, encontrar espaço para vulnerabilidade, tudo isso me aproximou de uma masculinidade mais sólida, não menos masculina. Uma masculinidade menos performática e mais consciente, menos baseada em provar força o tempo inteiro e mais baseada em responsabilidade. Porque homens também são educados para performar. Pouco se fala sobre isso. Meninos aprendem desde cedo que precisam “dar conta”, “saber naturalmente”, “ser experientes”, “não demonstrar dúvida”, como se masculinidade viesse instalada biologicamente e não construída socialmente. Enquanto meninas frequentemente recebem alguma mediação adulta sobre o corpo, meninos são deixados à própria sorte, entregues aos amigos igualmente desinformados, à pornografia ou ao algoritmo.

E quando a educação não ocupa espaço, o mercado ocupa. A pornografia se torna escola, o fórum da internet se torna referência, influenciadores agressivos se tornam modelos masculinos. Talvez por isso tantos homens confundam sexo com desempenho, intimidade com conquista, masculinidade com domínio. Hoje sabemos, inclusive cientificamente, que meninos tendem a procurar menos ajuda médica, expressam menos sofrimento emocional e apresentam maiores índices de comportamentos de risco. Diversos estudos em psicologia do desenvolvimento e saúde pública apontam que normas rígidas de masculinidade aumentam resistência ao autocuidado, à comunicação emocional e à busca por orientação. O problema não é apenas individual, é cultural.

A socióloga Raewyn Connell, uma das principais referências nos estudos sobre masculinidade, fala sobre a chamada “masculinidade hegemônica”, um modelo social que associa ser homem à invulnerabilidade, ao domínio, à performance constante e à recusa do cuidado. Nesse modelo, o menino aprende cedo que sentir demais, perguntar demais ou precisar demais ameaça sua identidade masculina. O resultado aparece mais tarde nas relações, nos índices de violência, no despreparo emocional, na dificuldade de intimidade e até na maneira como muitos homens lidam com o próprio prazer.

Talvez por isso seja tão importante compreender que educação sexual nunca foi apenas sobre sexo. Educação sexual é educação emocional, corporal, relacional e ética. É ensinar um menino a entender desejo sem transformar o outro em objeto, é ensinar que vulnerabilidade não diminui masculinidade, é criar espaço para perguntas antes que a internet ocupe esse lugar. Meninos precisam aprender sobre consentimento, sobre responsabilidade, sobre prazer, sobre limites, sobre frustração, sobre emoções, precisam aprender que o corpo não existe apenas para performar virilidade.

Na filosofia antiga, essa relação entre educação masculina e responsabilidade já aparecia de formas complexas. Em O Banquete, Platão descreve discussões sobre amor, desejo, formação ética e transmissão de conhecimento entre homens mais velhos e jovens na Grécia antiga. Evidentemente, muitos desses vínculos envolviam relações profundamente problemáticas sob a ótica contemporânea, incluindo práticas que hoje reconhecemos corretamente como abuso e pedofilia. O avanço ético da humanidade exige que isso seja dito com clareza. Ainda assim, existe ali uma compreensão importante: meninos precisavam ser educados sobre desejo, corpo, ética e responsabilidade. A formação masculina não era vista apenas como força física ou capacidade de guerra, mas também como aprendizado moral e emocional.

Hoje entendemos, felizmente, que esse lugar deve pertencer aos pais, às mães, à escola, aos profissionais de saúde e à sociedade, nunca à exploração de menores. A evolução ética também é evolução pedagógica. Talvez estejamos finalmente começando a perceber que educar meninos emocionalmente não é enfraquecer homens, mas diminuir violências, produzir relações mais conscientes e interromper ciclos inteiros de brutalidade afetiva.

Porque meninos que aprendem sobre o próprio corpo costumam desenvolver mais empatia pelo corpo do outro. Meninos que aprendem sobre vulnerabilidade tendem a compreender melhor limites emocionais. Meninos que encontram espaço para perguntas frequentemente se tornam homens menos defensivos diante da liberdade feminina. E talvez exista algo ainda mais profundo nisso tudo: homens que aprendem a cuidar de si mesmos tendem a depender menos do controle sobre os outros para se sentirem homens.

Porque o oposto de vulnerabilidade não é força. Muitas vezes, é apenas desconexão.

 

Ramon Bennett

Consultor em Relacionamentos e Sexólogo

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